PADRE TIAGO THEISEN
Padre Jacques
Theisen - ou padre Tiago, como é mais conhecido em toda a comunidade
norte-riograndense - nasceu em Namur - Bélgica - em 23 de outubro de 1930. Fez
o curso superior de Filosofia, Teologia e Bibliotecário, Doutorado pela
Universidade de Louvain onde estudou na década de 60, fazendo estágio em
assutos para a América Latina.
Filho de Joseph
Theisen e anna Jonet. O casal teve cinco filhos, o padre Tiago é o caçula da
família.
Quando jovem,
aos doze anos, foi cirurgiado no intestino e quase não resistiu. Teve que se
submeter a outras seis conseqüência da primeira.
Na época da
Segunda Guerra Mundial chega a passar fome. Era feita apenas uma refeição
diária e assim mesmo com farelos. Para o cozimento era necessário colher lenha
muito distante de sua residência.
Participou de
grupos de escoteiros e outros movimentos em seu país. De início não tinha
vocação para o secerdócio. Desejava ser piloto de aeronave. Somente aos
dezessete anos é que despertou para sua atual vocação.
O que fez com
que despertasse para o sacerdócio foi a morte do Padre Georges, decapitado
pelos alemães. Este era grande amigo do padre Tiago que muito o adimirava.
A morte de seu
amigo fez com que pensasse como se poderia continuar seus trabalhos que tantos
benefícios traziam para os jovens.
Tomada a
decisão iniciou os estudos. No início era difícil pois tinha que pedalar
diariamente 11 quilômetros que separavam do seminário.
Valeu o esforço
e, para a felicidade de todos, ordenou-se sacerdote no dia 31 de julho de 1955.
- Há cinqüenta anos.
UM POUCO DE SUAS ATIVIDADES
O sotaque
carregado, lembra a origem belga, e a lista dos projetos sociais já executados
é uma amostra do trabalho do sacerdote que, além da evangelizar, tornou-se um
exemplo de cidadão voluntário. Passados mais de 37 anos da sua chegada a Natal, padre
Tiago Theisen continua engajado nas mesmas causas que lhe fascinaram quando
pisou na capital potiguar: a educação das crianças.
Nessas quase
quatro décadas e trabalhando unicamente com o voluntariado, padre Tiago
contabiliza 33 jardins de infância criados, 35 igrejas construídas, 11
ambulatórios médicos instalados, cinco gabinetes odontológicos e ainda um
laboratório de análise. São números expressivos que ganham ainda mais destaque
por terem sido “construídos” unicamente com ações voluntárias coordenadas pelo
sacerdote, que esse mês completa 50 anos de padre.
Em cada
paróquia que passou, padre Tiago deixou sua marca social. Seja na Bélgica onde
ficou até 1967 ou em Natal, onde chegou em 1968, ele não apenas se identifica
com os problemas da comunidade, como procura dar sua expressiva parcela de
contribuição, que ganha mais destaque pelo papel mobilizador que faz. Para ele,
o trabalho é apenas reflexo da busca de praticar o Evangelho.
Pena que, após
a sua transferência para outras paróquias, o trabalho iniciado no local, muitas
vezes, não tem continuidade do vigário sucessor. Passados quase quatro décadas
de atuação em Natal, com satisfação o religioso afirma que já foram formados
nos jardins de infância 35.210 crianças.
Por que o foco
nos jardins de infância? Com sua característica voz tranqüila e o olhar de
otimismo, padre Tiago explica: “Está comprovado que a personalidade humana se
desenvolve entre os 3 e 8 anos de idade. É nessa época que ocorre o
desenvolvimento afetivo, intelectual, artístico e intelectual; essa é a idade
do despertar”.
Explicação
teórica e gestos práticos. Basta uma rápida passagem pelos jardins criados por
padre Tiago para constatar o quanto ele é querido pelas crianças e o estilo
próprio que desenvolveu para as escolas. As reuniões com os pais são mensais,
com a regra da obrigatoriedade de representantes de cada criança. São nesses
encontros que os professores, instruídos por padre Tiago, passam ensinamentos
para os pais. Na educação, a psicomotricidade tem um capítulo à parte, na
preocupação com a formação do caráter e da personalidade do menor.
Os jardins de
infância desenvolvidos pelo sacerdote não se esgotam na educação comum. No
Jardim de Infância Pinóquio, em Igapó, por exemplo, há uma escola de flauta,
com mais de 40 crianças. Nessa escola, também é desenvolvido o trabalho com uma
orquestra. E uma curiosidade, dos 33 ardins, apenas dois não têm nomes de flor.
No Jardim Bem
Me Quer, no Parque dos Coqueiros, os alunos cuidam de uma horta. “O que é
produzido na horta serve para a alimentação das crianças”, destaca o sacerdote.
A descoberta da
evangelização
EVANGELIZAÇÃO - Padre Tiago fala sobre o objetivo do seu trabalho
EVANGELIZAÇÃO - Padre Tiago fala sobre o objetivo do seu trabalho
A vinda de
padre Tiago Theisen para o Brasil ocorreu meio que “por acaso”. Na década de
60, na paróquia belga onde ele trabalhava, havia uma média de um padre para
cada grupo de 500 habitantes. Com a grande quantidade de sacerdotes, o então
papa Paulo VI começou uma campanha para enviar padres à América Latina, onde
havia uma grande carência. No Brasil, por exemplo, a média era de um padre para
cada 21 mil habitantes.
No entanto,
quando surgiu a proposta de vir para a América Latina, padre Tiago logo pensou
na Bolívia, onde já tinha um amigo padre. Foi uma visita de dom Nivaldo Monte,
à universidade belga, que fez o sacerdote mudar de idéia. “Dom Nivaldo falou
sobre a falta de padres e aí pensei que não seria justo um país pobre também
ter problemas com falta de sacerdote. As pessoas falavam que o Brasil era o
retrato da América Latina, então o futuro da Igreja da América Latina estava no
Brasil”, lembrou padre Tiago, hoje com 74 anos.
Depois de 14
dias de viagem em um navio cargueiro, padre Tiago chegava ao porto de Recife no
dia 22 de março de 1968. Para chegar a Natal foi outra longa viagem. Naquela
época a BR 101 ainda não estava construída, e padre Tiago saiu de Recife,
passou por Tangará, para poder chegar ao destino final.
Natural da
cidade belga de Namur, o sacerdote aportava numa cidade que não imaginava com o
que se depararia. “Quando disse a dom Nivaldo que viria para Natal, fui
procurar num mapa para ver onde era”, recorda.
Quando chegou
na capital potiguar, o bispo da época, dom Nivaldo Monte, deixou a seu critério
a escolha da paróquia. E o primeiro passo para definir foi um passeio pela
cidade. Passou por vários bairros, mas logo as Quintas chamou sua atenção.
“Sempre trabalhei em paróquias de periferia. Naquela época, as Quintas era o
ideal”. A escolha das Quintas foi mais do que uma definição da igreja para
celebrar missa. Foi o ponto de partida para as obras sociais que padre Tiago
começaria a desenvolver na cidade.
O sacerdote
chegou a perfurar um poço d’água no Bairro Nordeste para resolver o problema do
abastecimento da comunidade. Naquele mesmo bairro, ainda criou um laboratório
de análise para os exames feitos nos ambulatórios, instalados por ele.
Desbravador de
paróquias em Natal
Nos mais de 37 anos de estada em Natal, o trabalho de padre Tiago Theisen se caracterizou por empreendedorismo tanto nas obras sociais quanto nas ações evangelizadoras. A Paróquia das Quintas, de Nossa Senhora do Perpétuo de Socorro, foi fundada por ele.
Depois da sua
criação, a paróquia já passou por oito divisões. Hoje, na Paróquia Santa Maria
Mãe, onde está, padre Tiago também desenvolve muitas ações evangélicas. “Fui o
primeiro padre da Zona Norte. Celebrávamos muito. Já fiz mais de 52 mil batismos”, diz
ele, ressaltando que educação infantil é fundamental: “O que podemos oferecer
para as comunidades pobres é a educação. E é isso o que estamos fazendo com
essas unidades”, completa.
Mas no início o
trabalho foi mesmo de construção. “A comunidade doava um terreno e onde
fazíamos uma Igreja, ao lado construíamos um jardim de infância para atender as
crianças”, afirma padre Tiago.
Para ele, aliar
evangelização e educação é natural, já que está tornando concreto o que prega
na teoria.
O trabalho de padre Tiago não é restrito apenas às crianças atendidas nos jardins de infância. O sacerdote vai muito além. Com os funcionários ele também tem o papel de coordenador e incentivador de novos projetos. As irmãs Luíza e Anita Braz, moradoras de Igapó, foram uma das primeiras voluntárias do trabalho do sacerdote belga.
Elas se
interessaram em trabalhar como professoras voluntárias no Jardim Pinóquio. No
entanto, havia um problema, já que nenhuma das duas tinha formação. O empecilho
acabou com a iniciativa de padre Tiago levar as duas jovens para estagiar no
Colégio das Neves. “Elas aprendiam pela manhã e ensinavam à tarde”, diz padre
Tiago. Anos depois de voluntárias, com a ajuda do sacerdote, as duas irmãs se
tornaram professoras do Governo do Estado.
O incentivo
recebido foi tanto que Luíza foi ainda mais longe. Aos 50 anos, estava se
formando em Educação Artística, logo em seguida fez especialização em
Arte-Terapia; conhecimentos que ela aplica nas escolas coordenadas por padre
Tiago.
“Eu só acredito
em tudo isso que aconteceu porque vivi. Parece inacreditável”, diz Luíza Braz,
avaliando os frutos de todo o trabalho voluntário.
Luciene
Pinheiro também traz uma história profissional aliada ao trabalho voluntário de
padre Tiago. Na década de 70 ela foi aluna do Jardim Pinóquio, em Igapó. Depois
de aluna, hoje ela é professora da escola. “Padre Tiago é o tutor, ele nos
ajuda muito. É o nosso mestre que também ajuda nas necessidades pessoais. Ter
estudado aqui e hoje estar trabalhando no jardim é muito gratificante”,
completa.
O incentivo
recebido por Luciene é apenas um exemplo. Seja com alunos ou com funcionários,
mais do que otimismo, padre Tiago procura mostrar o longo caminho do
conhecimento. Nos jardins já há exemplos de merendeiras que, com o apoio do
sacerdote, chegaram a concluir o ensino superior.
Quintas marcou
o início das ações sociais
As ações
sociais de padre Tiago tiveram início no bairro das Quintas, sua primeira
Igreja. Quando começou o trabalho em 1968, não havia educação e saúde para a
população de baixa renda. A partir dessas carências o sacerdote traçou os
planos de ajuda.
A primeira
coisa que lhe chamou a atenção na chegada à Igreja das Quintas foi o fato de
que havia uma escola particular, da própria Igreja. A primeira providência foi
conseguir professores voluntários e acabar com a cobrança no colégio. O
primeiro jardim fundado por padre Tiago foi o Pinóquio, em Igapó, mantido até
hoje.
O sacerdote
recorda que não teve muita dificuldade para encontrar voluntários. Como a Paróquia
das Quintas era muito grande, chegando até Igapó, e não havia muitas Igrejas, o
belga celebrava missas nas próprias casas da comunidade. “Na missa eu
perguntava se as pessoas gostariam de participar do trabalho voluntário”,
comenta. A abordagem deu certo e começaram a surgir as ações.
A primeira
construção foi uma sala polivalente no bairro de Bom Pastor. A sala foi usada
como ambulatório médico, clube de mães, jardim da infância e Eucaristia. Tantas
funções numa tentativa do padre de oferecer o maior número de trabalho
possível.
Na assistência
à saúde, padre Tiago recorda que contou com o apoio dos universitários de
Enfermagem, Medicina, Odontologia e Farmácia. Os medicamentos distribuídos à
população foram trazidos pelo próprio sacerdote, quando ele veio para Natal.
Tantas ações têm uma justificativa: “o padre é um fabricante de fermento. Mas
não pode ser qualquer fermento, tem que ser um que levanta. Trabalhamos com boa
vontade”, comenta o sacerdote.
Depois de 14
anos nas Quintas, em 1982, padre Tiago fundou e se transferiu para a Paróquia
Santa Maria Mãe, em Santa Catarina. Até hoje o sacerdote está na comunidade,
aliando a evangelização com as atividades sociais.
Atualmente,
padre Tiago coordena três jardins de infância, num total de 457 crianças. Nos
jardins o trabalho de padre Tiago continua contando com o apoio da Prefeitura,
que oferece os professores e a merendeira. “O trabalho é como uma mesa: tem o
governo, a comunidade, a família e a ajuda de fora. Mas não podemos esquecer
que essa ajuda de fora um dia desaparece.”
A realidade
atual pouco lembra o início das atividades: “foi muito difícil no início. Mas
temos que lembrar da primeira coisa que Jesus fazia antes de qualquer trabalho:
formava uma equipe. Foi isso que fiz. Porque mesmo na fraqueza humana todos
conseguimos dar algo.” Da primeira turma do Jardim Pinóquio, com satisfação
padre Tiago lembra que dos 20 alunos, nove tiveram formação de ensino superior.
Um número que serve de indicativo para o rendimento do “fermento” desenvolvido
pelo sacerdote belga.
MATERIA JORNAL TRIBUNA DO NORTE:
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