A atitude das pessoas contemporâneas
de Jesus, que o festejaram na sua entrada em Jerusalém e depois o
abandonaram à mercê de seus algozes, se assemelha, muitas vezes, a
atitudes de cada um de nós que louvamos a Cristo e nos enchemos de
boas intenções para seguir os seus ensinamentos e, ao primeiro
obstáculo, nos deixamos levar pelo desânimo, ou pelo egoísmo, ou
pela falta de solidariedade e, mais uma vez, alimentamos o sofrimento
de Jesus.
A Festa de Ramos com hosanas e
saudações, prefigura a vitória de Cristo sobre a morte e o pecado,
mas a hora definitiva ainda chegará. Jesus vai ao encontro da paixão
com plena consciência e aceitação livre. Tem o poder de solicitar
legiões de anjos que venham em seu auxílio, mas renuncia ao uso
deste poder. Ele veio trazer a paz ao mundo, escolhe o caminho da
humildade, a vontade do Pai se realizando.
Jesus entra em Jerusalém em clima
de festa. Parece que Ele quer mesmo isso porque arma a cena que
reproduz direitinho a profecia de Zacarias (o
rei dos judeus virá como rei pacífico, montado num jumentinho, não
numa montaria de guerra). É aquela aclamação. O povo
festejava na expectativa de ter finalmente o prometido descendente de
Davi, que ia reconduzir Israel a uma situação de vitória até
maior do que as glórias idealizadas do passado. "Hosana
ao filho de Davi", clamavam. E a lembrança das
promessas feitas à dinastia de Davi alimentava certa imagem do
Messias. O problema é que essa imagem de Messias poderoso,
invencível, não ia combinar bem com o que aguardava Jesus pouco
tempo depois.
Entre a entrada festiva como rei em
Jerusalém e o deboche da flagelação, da coroação de espinhos e
da inscrição na cruz (Jesus de Nazaré,
rei dos Judeus), somos levados a pensar: Que tipo de rei o
povo queria? E que tipo de rei Jesus de fato foi?
O povo ansiava
por um Messias, mas cada um o imaginava de um jeito: poderia ser um
rei, um guerreiro forte que expulsasse os romanos, um “ungido de
Deus” capaz de resolver tudo com grandes milagres... É verdade que
havia também textos que falavam no Messias sofredor, que iria
carregar os pecados do povo. Mas essa idéia tão estranha não tinha
assim muito apelo. Talvez o povo pensasse como muita gente de hoje:
“de sofredor, já basta eu, quero alguém que saiba vencer”.
Deus, como de costume, exagera na
surpresa. O Messias, além de não vir alardeando poder, entra na
fila dos condenados. Para quem não olhasse a história com os olhos
de hoje, não haveria muita diferença entre as três cruzes no alto
do monte Calvário.
Domingo de Ramos é o portal de
entrada da Semana Santa. Para as comunidades cristãs, esta semana
maior sempre será um confronto com o problema do mal no mundo. Muito
sofrimento. Além das catástrofes naturais, há no mundo muita opção
de morte, desde a violência da guerra, o terrorismo, a violência
urbana, a morte pela fome e as deficiências até a violência contra
a própria natureza. Qual a saída? A guerra preventiva para vencer o
terrorismo com o terrorismo? A imposição da idolatria do capital
contra o império do mal?Ou a saída, certamente a mais difícil, não
será a da proposta do Evangelho, que passa pelo mistério da paixão,
morte e ressurreição do Senhor? Muitas vezes Jesus caminha ao nosso
encontro e nós não o reconhecemos. Tenhamos a coragem de viver
estes dias da Paixão meditando os sofrimentos de Cristo, que são os
nossos sofrimentos para vencermos a morte na alegria da Ressurreição.
Dom Eurico dos Santos Veloso
FONTE CNBB
Nenhum comentário:
Postar um comentário